Donald Trump está de volta à China, mas a nação que ele encontrará nada tem a ver com aquela visita de 2017. O gigante asiático vive hoje um paradoxo evidente: deseja fervorosamente que sua população consuma mais, puxando a economia para dentro, mas não está disposto a abrir as portas para as empresas americanas. Theo Paul Santana, especialista em negócios China/Brasil e fundador do Destino China, coloca o dedo na ferida dessa sutileza estratégica que define a política econômica chinesa.
O foco mudou – e muito
Enquanto Trump busca uma abertura do mercado chinês, especialmente para americanos no setor de tecnologia e serviços financeiros, a China tem outro rumo. O 15º Plano Quinquenal prioriza o crescimento do consumo doméstico, reduzindo a dependência da indústria pesada, construção civil e das exportações externas.
Hoje, o consumo familiar representa apenas 40% do PIB chinês, muito abaixo dos 68% dos EUA. Por isso, o governo está apostando em melhorar a renda das famílias, ampliar investimentos em saúde, previdência e urbanização. Programas de estímulo direto ao consumo, como troca de eletrodomésticos e subsídios para famílias com crianças, receberam trilhões de yuans em aporte.
Campeões nacionais continuam no comando
Mas não se engane: aumento do consumo não quer dizer que o mercado vai se escancarar para Google, Netflix ou Meta. A China segue bloqueando essas plataformas e mantém barreiras no setor financeiro. O objetivo é claro: beneficiar principalmente suas próprias empresas, os “campeões nacionais”. O avanço do consumo toca primeiro e mais fundo o mercado chinês, deixando as multinacionais americanas em uma espécie de limbo comercial.
De fábrica do mundo para líder global em tecnologia
Desde 2017, o cenário mudou radicalmente. O PIB chinês dobrou, pulando de US$ 12 trilhões para a estimativa de US$ 20 trilhões em 2026. O país não compete mais pelo menor custo — ele lidera áreas estratégicas como veículos elétricos, baterias, inteligência artificial e manufatura avançada.
Não bastasse a transformação, a China enfrenta desafios inéditos: o colapso do setor imobiliário, a crise da Evergrande e uma bomba demográfica com queda populacional pelo quarto ano seguido. Tudo isso faz a relação com os EUA mais complexa ainda, especialmente com um comércio bilateral que já reduziu a participação americana nas exportações chinesas de 19% para cerca de 10%.
Trump encontra então uma China mais sofisticada, tecnológica e resiliente, com um olhar focado para dentro, no fortalecimento do mercado doméstico. Sua agenda de negociação terá que lidar exatamente com esses paradoxos: um consumidor chinês faminto, porém territorialista, de um lado; e do outro, a pressão americana por mais abertura e investimentos.
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